Depois de anos como a eterna “segunda opção” atrás da Nvidia no mercado de chips para inteligência artificial, a AMD (Advanced Micro Devices) cruzou em 21 de setembro de 2026 uma linha que só um punhado de empresas no mundo já cruzou: valor de mercado de US$ 1 trilhão — ou seja, o valor de todas as ações da empresa somadas, se alguém quisesse comprar a companhia inteira naquele instante, dava algo em torno de R$ 5,18 trilhões na cotação comercial do dólar daquele período. O gatilho não foi um produto novo chegando à loja, mas uma enxurrada de contratos multibilionários para fornecer chips de IA a gigantes como OpenAI, Meta, Microsoft, Oracle e Anthropic.
O detalhe importante, e que vale repetir logo de cara: preço de ação muda todos os dias — às vezes várias vezes por hora. Cada número deste texto vem acompanhado da data exata em que foi apurado, exatamente para que a informação continue fazendo sentido mesmo que você esteja lendo isso dias depois da publicação. A apuração mais recente é de 9 de outubro de 2026, última sexta-feira, quando os pregões da semana se encerraram.
O rally que levou a AMD ao clube do trilhão
Segundo a cobertura da CNBC, a virada veio ao fim de uma sequência de cinco pregões seguidos de valorização na bolsa americana Nasdaq. Veja como os números se moveram da reta final de setembro até a primeira semana de outubro:
Fechamento de um pregão histórico: a ação subiu cerca de 10% em um único dia e encerrou em US$ 615,52 (≈ R$ 3.188), empurrando o valor de mercado da AMD para além de US$ 1 trilhão (≈ R$ 5,18 trilhões) pela primeira vez na história da empresa. Fonte: CNBC, GuruFocus.
Ação ainda sustentando o patamar, fechando a US$ 614,61 (≈ R$ 3.184), com alta acumulada de aproximadamente 187% no ano até aquela data. Fonte: The Motley Fool.
Novo fechamento em alta, a US$ 630,63 (≈ R$ 3.267), perto da máxima de 52 semanas da ação.
Fechamento em US$ 607,87 (≈ R$ 3.149). No mesmo dia, a AMD anuncia a compra da World Labs, startup de inteligência artificial “espacial” fundada pela pesquisadora Fei-Fei Li, por US$ 8,2 bilhões (≈ R$ 42,5 bilhões) — negócio à parte do marco do trilhão, mas que reforça a mesma aposta pesada em IA. Fonte: Bloomberg, CNBC.
O valor de mercado é medido em US$ 991,84 bilhões (≈ R$ 5,14 trilhões) — ou seja, de volta para abaixo da marca de US$ 1 trilhão, mostrando que a linha do “clube do trilhão” é cruzada e descruzada dependendo do pregão, não um estado permanente. Fonte: CompaniesMarketCap.
Ação negociada a US$ 604,81 (≈ R$ 3.133), queda de 1,84% no pregão. Alta acumulada de 183,7% em 2026 e de 276% em 12 meses. Máxima de 52 semanas: US$ 639,00 (≈ R$ 3.310); mínima: US$ 159,33 (≈ R$ 825). Fonte: agregação de dados de mercado consultada nesta data.
Maior fechamento do período: a ação encerrou a US$ 649,42 (≈ R$ 3.240), e o valor de mercado voltou a ficar acima de US$ 1 trilhão em alguns pregões da primeira semana de outubro. Fonte: StockAnalysis, CompaniesMarketCap.
Fechamento a US$ 608,10 (≈ R$ 3.034) e valor de mercado em US$ 992,7 bilhões (≈ R$ 4,95 trilhões) — de novo um pouco abaixo da marca do trilhão. Na janela de 52 semanas, a ação oscilou entre US$ 188,22 (≈ R$ 939) e US$ 658,52 (≈ R$ 3.285). Fonte: StockAnalysis, CompaniesMarketCap. Conversões pelo dólar PTAX de 9 de outubro (R$ 4,9892).
Valor de mercado (ou market cap) é simplesmente o preço de uma ação multiplicado pelo total de ações que a empresa tem em circulação — é a forma que o mercado usa para dizer “quanto essa empresa inteira valeria hoje, se você fosse comprá-la pedaço por pedaço”. Não é dinheiro em caixa nem lucro: é uma estimativa que sobe e desce todos os dias junto com o preço da ação.
Os acordos bilionários que sustentam a aposta em IA
O rally de setembro não nasceu do nada — ele é a soma de uma série de contratos multibilionários que a AMD fechou ao longo de 2025 e 2026 para fornecer chips de inteligência artificial a algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo. Boa parte desses contratos usa gigawatt (GW) como unidade — uma medida de energia elétrica emprestada do setor de infraestrutura, usada aqui para indicar o tamanho do centro de dados inteiro que vai rodar com aqueles chips, e não a potência de um chip individual.
| Item | Detalhe |
|---|---|
| OpenAI | Acordo de 6 GW anunciado em 06/10/2025; primeiro 1 GW com chips Instinct MI450 a partir do 2º semestre de 2026. AMD deu à OpenAI um warrant (direito de comprar até 160 milhões de ações da AMD a um preço combinado) atrelado a metas de entrega. |
| Meta | Parceria expandida anunciada em 24/02/2026 para 6 GW de GPUs da AMD, em um negócio avaliado em cerca de US$ 60 bilhões (≈ R$ 310,8 bilhões). |
| Anthropic | Acordo anunciado em julho de 2026 para até 2 GW de chips Instinct MI450, com a AMD investindo até US$ 5 bilhões (≈ R$ 25,9 bilhões) na empresa por trás do assistente de IA Claude. |
| Microsoft | Expansão de parceria de longo prazo anunciada em 20/07/2026 para levar a próxima geração de chips Instinct e processadores EPYC à nuvem Azure. |
| Oracle | Parceria anunciada em 14/10/2025 para implantar 50 mil GPUs Instinct MI450 em superclusters de IA, com entrega prevista para o terceiro trimestre de 2026. |
Em outras palavras: a alta de setembro não é sobre um produto que já está gerando receita em escala — é o mercado precificando, com bastante antecedência, contratos que só vão virar chip entregue e faturamento de verdade ao longo dos próximos anos.
AMD x Nvidia: o que os números atuais mostram
Apesar da festa na bolsa, o resultado financeiro da AMD ainda está longe de justificar, sozinho, a companhia com a Nvidia. No segundo trimestre de 2026, a AMD reportou receita total de US$ 11,54 bilhões (≈ R$ 59,8 bilhões), alta de 50% ante o mesmo período do ano anterior, com a receita de data center — a fatia do negócio ligada a chips para servidores e IA, diferente dos processadores para computador comum — somando US$ 6,7 bilhões (≈ R$ 34,7 bilhões), alta de 107%. No mesmo comparativo, segundo o Motley Fool, a receita de data center da Nvidia já estava em torno de US$ 89 bilhões (≈ R$ 461 bilhões) — mais de treze vezes o número da AMD.
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Fatia do mercado de GPU (IA) | AMD: ~5% · Nvidia: dominante, sem rival próximo |
| Receita de data center (trim. mais recente) | AMD: US$ 6,7 bi · Nvidia: ~US$ 89 bi |
| P/L projetado (em 23-25/09/2026) | AMD: ~81x · Nvidia: ~24x |
| Valor de mercado (09/10/2026) | AMD: ~US$ 993 bi · Nvidia: ~US$ 5,5 tri |
O P/L (preço sobre lucro) é uma conta simples que o mercado financeiro usa para dizer, grosso modo, quantos anos do lucro atual da empresa seriam necessários para “pagar” o preço de uma ação hoje, se tudo ficasse igual — é um pouco como comparar o aluguel de dois imóveis parecidos: quanto maior o múltiplo pago em relação ao retorno atual, mais o comprador está apostando que aquele retorno vai crescer bastante no futuro. Com um P/L projetado de cerca de 81 vezes contra os 24 da Nvidia (dados de 23 a 25 de setembro de 2026, segundo o Motley Fool; em 9 de outubro, medido pelo lucro dos últimos 12 meses, o múltiplo da AMD aparecia em torno de 155 vezes, segundo o StockAnalysis), o mercado está claramente pagando pela AMD um preço que só faz sentido se os contratos bilionários listados acima virarem, de fato, faturamento nos próximos anos.
A Nvidia ainda fatura, sozinha, mais de treze vezes o que a AMD fatura em data center — mas o mercado já cobra pela ação da AMD um múltiplo de lucro quase três vezes mais alto.
Vale outro comparativo de contexto: em 9 de outubro de 2026, a Intel — rival histórica da AMD no mercado de processadores para PC — tinha valor de mercado em torno de US$ 553 bilhões (≈ R$ 2,76 trilhões), segundo o CompaniesMarketCap. Isso deixava a AMD valendo cerca de US$ 439 bilhões (≈ R$ 2,19 trilhões) a mais do que a empresa que por décadas foi sinônimo de liderança em chips.
É importante separar duas coisas: o que a AMD já entrega hoje (receita crescendo, mas ainda pequena perto da Nvidia) e o que o preço da ação está embutindo (a expectativa de que os gigawatts contratados com OpenAI, Meta, Anthropic, Microsoft e Oracle vão de fato se transformar em entregas e faturamento nos próximos anos). Esse tipo de aposta é comum em momentos de euforia com um setor novo — e também é o que mais historicamente andou junto com correções bruscas de preço quando a expectativa demora para virar resultado.
Este artigo não é uma recomendação de compra ou venda da ação da AMD — o Máximo em Tech não dá esse tipo de conselho. Dito isso, o marco do trilhão tem um significado que vai além do preço da ação: ele confirma, com dinheiro de verdade apostado por gente grande (OpenAI, Meta, Microsoft, Oracle, Anthropic), que o mercado de chips para IA deixou de ser um duopólio confortável entre Nvidia e “o resto” — a AMD virou, oficialmente, opção de peso na mesa de qualquer empresa que esteja decidindo onde comprar poder computacional para treinar e rodar modelos de IA nos próximos anos.
Para quem acompanha o setor de tecnologia, o dado mais relevante talvez não seja o valor de mercado em si (que sobe e desce todo dia), mas o volume e o tamanho dos contratos por trás dele: são gigawatts de capacidade sendo reservados com anos de antecedência, o que tende a significar mais concorrência entre Nvidia e AMD, e possivelmente melhores condições de preço e disponibilidade para quem compra ou aluga esse poder computacional adiante na cadeia — de startups de IA a provedores de nuvem.
Já para quem compra hardware da AMD no dia a dia (placas de vídeo Radeon, processadores Ryzen), o impacto direto ainda é incerto: o grosso do dinheiro e da atenção da empresa está migrando para o lado corporativo de data center, e vale acompanhar se isso significa mais investimento em pesquisa e desenvolvimento também para as linhas voltadas ao consumidor, ou se os holofotes ficam concentrados na IA corporativa.
Fontes: StockAnalysis (09/10/2026) · CompaniesMarketCap (29/09 e 09/10/2026) · CNBC (21/09/2026) · GuruFocus (21/09/2026) · The Motley Fool (25/09/2026) · CryptoBriefing (21/09/2026) · Blockchain.News (30/09/2026) · Bloomberg e CNBC (28/09/2026, aquisição da World Labs) · Comunicados oficiais de imprensa da AMD (relações com investidores) sobre as parcerias com OpenAI, Meta, Anthropic, Microsoft e Oracle · Tom’s Hardware e Oracle Newsroom (parceria com a Oracle). Cotação do dólar comercial (PTAX): 30/09/2026 nas conversões dos registros até essa data e 09/10/2026 (R$ 4,9892) nas demais. Valores de bolsa mudam todos os dias; consulte uma fonte de mercado para o número em tempo real.