Em 2018, o mundo descobriu que a Cambridge Analytica — consultoria política britânica que trabalhou para a campanha de Donald Trump em 2016 — tinha acesso a dados de cerca de 87 milhões de perfis do Facebook, colhidos por um quiz de personalidade que parecia inocente. Oito anos depois, a conta chegou, e não foi em Washington: foi em Santa Fe, capital do Novo México, onde um júri decidiu que a Meta (dona do Facebook e do Instagram) mentiu aos usuários sobre privacidade — e onde agora um juiz precisa dizer quanto isso vai custar.
A divisão de tarefas aqui importa para entender o resto da história: nos tribunais americanos, o júri decide se a empresa errou, e foi isso que aconteceu em 25 de setembro de 2026. Já o valor da multa, neste caso, quem fixa é o juiz — e ele ainda não decidiu. Até 4 de outubro de 2026, a decisão seguia pendente.
Um júri, 26 declarações enganosas e mais de 43 milhões de infrações
O processo foi aberto em 2021 pelo procurador-geral do estado, Raúl Torrez, com base na Lei de Práticas Comerciais Desleais do Novo México — uma lei estadual que funciona como um código de defesa do consumidor, proibindo empresas de fazer propaganda enganosa. O júri concluiu que a Meta fez 26 declarações falsas ou enganosas ao longo de 11 anos sobre como usava, vendia e protegia os dados dos usuários, e também sobre como combatia discurso de ódio e desinformação na plataforma. Pela contagem do júri, foram mais de 43 milhões de infrações.
Cada infração pode render uma multa de até US$ 5.000 (≈ R$ 26 mil). Multiplicando uma coisa pela outra, o teto teórico chega a cerca de US$ 219 bilhões (≈ R$ 1,15 trilhão) — mais do que o PIB de muitos países. É claro que ninguém espera um cheque desse tamanho: o próprio estado propôs ao juiz um valor bem menor.
O escândalo da Cambridge Analytica vem à tona: dados de cerca de 87 milhões de perfis do Facebook foram parar nas mãos da consultoria política.
A FTC (agência americana de defesa do consumidor) fecha acordo de US$ 5 bilhões (≈ R$ 26 bilhões) com o Facebook — recorde de multa de privacidade na época.
No Brasil, o Ministério da Justiça (via Senacon) multa o Facebook em R$ 6,6 milhões por compartilhamento indevido de dados de brasileiros no mesmo caso.
O Novo México abre o processo contra a Meta, que chega a julgamento em 2026.
Em outro caso do mesmo estado, sobre saúde mental e segurança de crianças, um júri impõe US$ 375 milhões (≈ R$ 1,96 bilhão) em março, e um juiz soma mais US$ 567 milhões (≈ R$ 2,97 bilhões) em 6 de agosto — total de US$ 942 milhões (≈ R$ 4,93 bilhões). A Meta disse que vai recorrer.
Veredito do caso Cambridge Analytica: o júri considera a Meta responsável por declarações enganosas sobre dados e conteúdo.
Audiência sobre a multa: o estado pede ao juiz entre US$ 35 e US$ 40 bilhões (≈ R$ 183 a R$ 209 bilhões). O juiz Francis Mathew diz que decide em duas a três semanas.
Como uma conta de US$ 219 bilhões (≈ R$ 1,15 tri) virou um pedido de US$ 40 bilhões (≈ R$ 209 bi)
| Item | Detalhe |
|---|---|
| Infrações apuradas pelo júri | Mais de 43 milhões |
| Teto por infração | US$ 5.000 (≈ R$ 26 mil) |
| Total teórico | ~US$ 219 bi (≈ R$ 1,15 tri) |
| Pedido do estado ao juiz | US$ 35–40 bi (≈ R$ 183–209 bi) |
| Recorde anterior (FTC, 2019) | US$ 5 bi (≈ R$ 26 bi) |
| Prazo da decisão | 2 a 3 semanas após 1º/10 |
O estado pediu cerca de 20% do teto teórico e justificou: um valor “menor” ainda pune a empresa de forma exemplar, mas respeita o direito de defesa e tem mais chance de sobreviver a uma apelação. Mesmo assim, o pedido é de sete a oito vezes o recorde anterior de multa de privacidade, os US$ 5 bilhões (≈ R$ 26 bilhões) que o Facebook pagou à FTC em 2019. Para dar escala: segundo a Associated Press, a Meta lucrou cerca de US$ 60 bilhões em 2025 (≈ R$ 314 bilhões) — então US$ 40 bilhões (≈ R$ 209 bilhões) equivaleriam a cerca de dois terços do lucro de um ano inteiro.
O próprio juiz sinalizou preocupação constitucional com uma cifra tão alta, e a Meta já deixou claro que vai brigar. Quando um tribunal de primeira instância fixa uma multa desse tamanho, o caminho natural é a apelação — que costuma levar anos. Ou seja: o número que o juiz anunciar nas próximas semanas provavelmente não é o número que a Meta, no fim das contas, vai pagar.
O que a Meta responde
A Meta disse que discorda do veredito e que vai continuar se defendendo. A empresa afirma que o estado escolheu a dedo declarações isoladas e nega ter vendido dados de usuários. Na audiência de 1º de outubro, os advogados da Meta foram além: argumentaram que a multa pedida seria inconstitucional por violar a Oitava Emenda dos EUA — o trecho da Constituição que proíbe multas “excessivas” — e que ninguém no Novo México chegou a ver essas declarações, confiar nelas ou ser prejudicado por elas.
A Meta classificou o pedido do estado como “surreal” e inconstitucional — e sugere que o número de infrações seja bem menor, contando apenas usuários reais do Facebook no estado.
Segundo o jornal Santa Fe New Mexican, a contraproposta da Meta é aplicar multas por infração mais baixas a um número bem menor de infrações, em vez de usar o total que o júri contabilizou. É exatamente nesse ponto — quantas infrações contam e quanto vale cada uma — que o juiz Francis Mathew vai ter de decidir nas próximas semanas.
O que isso tem a ver com quem usa Facebook e Instagram no Brasil
Diretamente, nada muda na sua conta: o dinheiro de uma eventual multa vai para o estado do Novo México, não para os usuários. Mas o caso mostra a distância entre a punição americana e a brasileira. O mesmo escândalo já rendeu uma multa de R$ 6,6 milhões no Brasil — aplicada em dezembro de 2019 e restabelecida em 2022, por causa de cerca de 443 mil brasileiros afetados. O pedido do Novo México é algo como 30 mil vezes maior.
O Brasil, no entanto, já vem endurecendo o jogo na proteção de dados: em agosto de 2026, a ANPD aplicou uma multa de R$ 153,7 milhões ao TikTok por falhas no tratamento de dados de crianças e adolescentes. Se o Novo México conseguir manter um valor próximo do que pediu, o precedente pode animar outros estados americanos — e reguladores pelo mundo — a mirar a Meta com mais ousadia.
Quando o juiz Francis Mathew divulgar a decisão — esperada entre meados e o fim de outubro —, o Máximo em Tech publica um recap com o valor final da multa, a reação da Meta e o que pode acontecer na apelação. É um desfecho que merece matéria própria: fique de olho aqui no blog.
Vale, e não só pelo valor. Mesmo que o juiz reduza bastante a multa, o veredito já está dado: um júri concluiu que a Meta enganou os usuários por 11 anos. É a segunda derrota da empresa no mesmo estado em poucos meses, e mostra que governos locais americanos passaram a ser uma frente de pressão tão séria quanto as agências federais.
Se você usa Facebook ou Instagram, não há nada urgente a fazer. Mas o caso nasceu de um aplicativo de terceiros que pedia acesso aos dados dos amigos de quem fazia um quiz — então vale uma limpeza: entre nas configurações de privacidade e revise a lista de apps e sites conectados à sua conta, removendo o que você não usa mais.
A decisão do juiz deve sair entre meados e o fim de outubro. Quando sair, o recap com o valor final vem aqui.
Fontes: Reuters (via U.S. News, 25/09/2026) · Associated Press (via PBS NewsHour, 25/09/2026; e 06/08/2026) · Source NM (01/10/2026) · Santa Fe New Mexican · Courthouse News · The Next Web · Ministério da Justiça/Senacon (via Estado de Minas, 30/12/2019, e Jornal Contábil, 24/08/2022) · FTC (via The Hacker News, 07/2019)